No último domingo, aproveitei que meu irmão estava viajando e emprestei o carro dele para ir à casa de minha mãe fazer uma visita rápida. Na ida, tudo correu tranquilamente. Mas, na hora de ir embora, o carro não ligava. Era madrugada numa rua deserta do Brooklin, e eu tentava fazer o carro pegar. Minha tia e minha prima, que estavam dentro de casa, perceberam que havia algo errado e foram até o portão ver se precisava de ajuda.
Depois de uns dez minutos, resolvi tentar empurrar o carro. Na hora que saí, outro carro com faróis apagados virou a esquina. Esperei ele passar, com algum receio, para agir. Mas o carro foi parando logo atrás de onde eu estava. Percebi que era uma viatura policial quando já estava a poucos metros de mim. Fiquei apreensivo, mas imaginei que eles poderiam oferecer ajuda.
Levei um susto quando os dois policiais desceram do carro de armas na mão, apontadas diretamente para mim. Mandaram eu colocar as mãos para cima, no momento em que meu outro irmão ia saindo do carro. O policial fez alguma ameaça que não entendi sobre a porta que se abria. Quando me recuperei e entendi o que estava acontecendo, falei calmamente: “Mas o carro é meu!”
Eles baixaram as armas, ficaram levemente constrangidos e começaram a se desculpar. “Tem muito furto de veículo na região”. Minha tia já tinha saído e começou a explicar que o carro não pegava, que íamos empurrar, etc. Depois de alguns minutos, resolvi tentar ligar uma última vez. O carro pegou e fomos embora, não sem antes ouvir mais uma vez os policiais justificarem que “tem muito furto de veículo, temos que ficar atentos”.
Ok, concordo. Mas não concordo com a abordagem que eles fizeram, e sei que eles mesmos sabiam estar errados. Para a sorte de ambos, estava escuro e eu não anotei nenhuma identificação da viatura. Não que fosse servir de algo…

Você não deixaria a PM reprimir uma garota como a Emma Stone. Deixaria?
Em junho, um menino de 14 anos foi morto por um PM em um “disparo acidental”. Não é de se espantar que uma coisa dessas pudesse acontecer, visto o modo como a polícia age, considerando qualquer um suspeito até que se prove o contrário (e não o inverso, como está na Constituição).
Meu irmão, o dono do carro, disse que a abordagem foi certa porque, se eu fosse bandido, poderia estar armado e atirado nos PMs. Eu discordo. Mas não é de se esperar que o brasileiro compreenda o que há de errado nos homens que deveriam nos servir e proteger, mas o que fazem mesmo é punir e reprimir.
“O Brasil segue sendo um dos poucos países do mundo a ter uma polícia MILITAR para garantir a segurança de CIVIS. Parabéns para o Brasil que vê algumas de suas universidades padecerem por falta de luz, mato alto, infraestrutura decadente e, sem resolver a causa, luta contra o sintoma, clamando por por gente armada na confusão de porrete com segurança”, escreveu, no Twitter, Edemilson Paraná, se referindo à ação da tropa de choque hoje, na USP. Mas que serve para a situação que eu vivi (e que só não foi pior porque sou branco).
O que me leva ao caso da invasão à reitoria da USP. Não vou entrar aqui na discussão se os alunos estavam certos ou não. A questão aqui é que porrada e violência não deveriam ser a resposta. Mas, no Brasil – e, especialmente em São Paulo – tem sido cada vez mais comum o uso da truculência para dissipar protestos. E a classe média sofrida aplaude, urra a cada cassetada que o policial acerta no manifestante “vagabundo”.
“Era isso que os moleques tentavam dizer no protesto atual: a maneira como a PM age no campus e os agentes que a comandam não se encaixam no espírito de livre pensar de uma UNIVERSIDADE. O pensamento socrático foi algemado pela truculência do Estado”, observou Marcelo Rubens Paiva, em seu blog, vejam só, no Estadão.
A PM paulista é mal treinada. Não sabe lidar com o cotidiano de uma cidade como São Paulo. E seu comando não ajuda em nada. Mas está tudo bem, está tudo tranquilo. Enquanto Datenas e afins se mantiverem do lado da violência e espalharem a mentalidade do “bandido bom é bandido morto”, pode ter certeza que nada vai mudar.
Já ficou mais do que claro que a classe média paulista, especialmente o lado branco desta, está sempre a favor da truculência policial. Foi assim na Marcha da Maconha (que se tornou Marcha pela Liberdade e acabou em porretada, gás lacrimogênio e perseguição da tropa de choque do Masp até o centro, com gente ferida, jornalistas agredidos e caralho a quatro), é assim em todo protesto que contrarie a ordem vigente. Mas tudo bem fazer marcha contra a corrupção, desde que se deixe de lado o governo do Estado, tão limpinho e brilhoso.
A sociedade brasileira está doente. A presunção da inocência que se dane. Policial tem que revistar qualquer um que julgar suspeito. “Quem não deve, não teme”. Pensa-se a polícia ainda como se fazia na época da ditadura. É pau em cima de quem desobedecer o Estado.

Nem a Amanda Seyfried tem o direito de abusar que nem a PM paulista!!
Já o digníssimo governador Geraldo Alckmin disse que os alunos precisam “ter aulas de democracia”. Concordo. Mas não são apenas eles, senhor governador. Sobre isso, dou, novamente, a palavra a Marcelo Rubens Paixa: “Venceram a generalização, o debate político raso e o Estado maniqueísta. Perderam a dialética e os movimentos sociais. Perdeu a DEMOCRACIA [o diálogo]“.
Há 20 anos no poder, o PSDB paulista jamais dialogou com manifestantes. É sempre borrachada na galera.
OBS: se você duvida que houve excesso de força policial na ação da USP de hoje, leia esse relato de uma jornalista do Jornal do Campus que presenciou tudo. Antes de abrir o texto com preconceito de “é gente do lado dos vagabundos”, dá uma olhada nesse trecho:
“Enfim, sou contra a ocupação. Sempre tive várias críticas ao Movimento Estudantil desde que entrei na USP. Nunca aceitei a partidarização do ME. Me decepciono com a falta de propostas efetivas e com as discussões ultrapassadas da maioria das assembléias. Mas, nada, nada mesmo, justifica o que ocorreu hoje. Nada pode ser explicação pra violência gratuita, pro abuso do poder e, principalmente, pela desumanização da PM”.