Escrito por Felipe Barros em 13.01.2010, 0:47

“Vemos nessas iniciativas uma atitude arbitrária e antidemocrática do governo Lula”. A frase é do bispo D. José Simão, e se refere ao Programa Nacional dos Direitos Humanos. Especialmente com relação a quatro artigos: aprovação do projeto de lei que descriminaliza o aborto, mecanismos para impedir a ostentação de símbolos religiosos em estabelecimentos públicos, a união civil entre pessoas do mesmo sexo e o direito de adoção por casais homossexuais.

A Igreja tem todo o direito de ser contra esses artigos. É estúpido, é retrógrado, mas é a posição dela. O que me incomoda nessa declaração do bispo de Assis é dizer que são ações antidemocráticas.

Se é antidemocrático legalizar o aborto ou permitir que casais homossexuais adotem uma criança, o que é democrático pra esse sujeito? Queimar pessoas na fogueira por “bruxaria”? Executar um cientista por contestar a visão heliocêntrica? Condenar as pessoas por usarem camisinha em um continente em que a AIDS atinge mais da metade da população?

Democrático é excomungar mãe e médico que abortam gêmeos de uma menina de nove anos que corria risco de morte, pois não tinha estrutura física para levar adiante uma gravidez. E perdoar o padrasto pedófilo que estuprou e engravidou a menina.

Já que legalizar o aborto é antidemocrático, que tal se a Igreja cuidasse dessas crianças que vieram ao mundo contra a vontade dos pais e sequer têm condições de criar um filho desejado, quanto mais um fruto de estupro? E as crianças que nasceram de uma gravidez de risco à mãe e ficaram órfãs em seu primeiro minuto de vida?

Ser contra essas quatro medidas é democrático. Dizer que elas são antidemocráticas é muita falta de bom senso.

ps: agradecimentos às minhas primas Joana e Lorena, meus tios Sofia Junqueira e Tuca Notarnicola e meu amigo Pablo, que me ajudaram a escrever esse texto.