A revista Veja e sua realidade paralela
Escrito por Felipe Barros em 22.09.2008, 12:55
Que a verdade é relativa quase todo mundo sabe. Mas aposto que quase ninguém consegue explicar direito esse complicado conceito. “Você não concorda comigo que o céu é azul?”, diz um. “Sim, claro, concordo”, responde o outro. “E dois mais dois, não são, incontestavelmente, quatro?”, continua o um. “É, tem razão”, desiste o outro.
Óbvio que os exemplos utilizados pelo um são muito simplistas. No entanto, podem, sim, ser contestados. Mas não é sobre isso que eu quero falar. O fato é: a Veja é uma porcaria. Isso não é um fato incontestável, como não é inconstestável que dois mais dois são quatro. Tudo depende do ponto de vista. Ou melhor, da análise que você faz. A Veja dá lucro, o que é bom. Então como ela pode ser uma porcaria?
Acontece, meu amigo, que a Veja “inventou” uma realidade totalmente distorcida e cheia de factóides absurdos. Peguemos como exemplo a capa desta semana. Nela, vemos o Tio Sam segurando umas notas de cem dólares e apontando pra cara do leitor, com os dizeres “eu salvei você”, em letras garrafais. Disso, entende-se que o Tio Sam salvou a mim, você, sua mãe, seu pai, seu cachorro, e por aí vai.
Pois hoje, vagando pelo Vestiário, encontrei um link para este artigo, de Luiz Carlos Azenha, em que ele resume porquê o Tio Sam não salvou a gente coisa nenhuma, e explica, com muito mais inteligência e capacidade dissertiva do que eu jamais teria, como a Veja distorce a realidade e aliena milhares de leitores todas as semanas: “Verdade factual? Quem quer saber dela se podemos fabricar nossa própria verdade? Luís Nassif definiu como parajornalismo, que é do que se trata: a criação de uma realidade paralela”, escreveu Azenha, obviamente, ironizando o pensamento da revista.
Se você é daqueles que lê e acredita fielmente em tudo – ou quase tudo – o que essa revista publica, cuidado. Você pode estar vivendo em um mundo paralelo em que o governo brasileiro só pensa em ferrar com todo mundo, enquanto os endinheirados, os verdadeiros heróis, lutam bravamente contra o malvado Luiz Inácio que, veja só, ousa dar dinheiro pra uns vagabundos que só fazem vadiar e ter filhos. E isso com o dinheiro suado da classe média, que é quem paga imposto, enquanto os ricos, dedo em riste, esbravejam contra a falta de ética dos políticos brasileiros.
A realidade, meus amigos, é que esses caras sonegam impostos. Só não sonegavam a CPMF, mas, graças à bravura desses homens, ela se foi e, agora, temos alguns reais a mais no banco todo mês. E o Bolsa Família pode não ajudar a todos, mas tirou muita família da miséria. E esses mesmos caras que tanto esbravejam contra a falta de ética dos governantes vivem se aproveitando da Lei de Gérson país afora, dizendo “você sabe quem eu sou” e todas essas coisas absurdas e irritantes que a classe alta brasileira vive fazendo.
O que não significa que o governo brasileiro e nosso presidente sejam 100% bonzinhos, cheios de boas intenções e etc. Enfim, leia o artigo e, se tiver tempo, leia também o blog Vestiário. Se não tiver tempo, arruma e lê de qualquer jeito.


